A corrupção na cultura brasileira: reflexões a partir de Raízes do Brasil
Por Redação
14/08/2026 às 10:00

Foto: VEJA
A corrupção é um tema recorrente no debate político no Brasil e suas origens são frequentemente questionadas.
A corrupção é um assunto constante nas discussões políticas do Brasil, sendo difícil lembrar de uma eleição em que não tenha sido uma pauta central. Em meio a um ambiente de acusações, raramente se analisa as raízes desse problema. A percepção comum tende a ver a corrupção como uma falha moral individual ou uma característica da ideologia oposta. Com frequência, recorre-se a autores como Sérgio Buarque de Holanda, especialmente ao seu livro Raízes do Brasil, para sustentar a ideia de que a corrupção está profundamente enraizada na cultura brasileira.
O livro Raízes do Brasil é frequentemente mencionado, mas muitas vezes lido de forma superficial. Revisitar obras clássicas traz o desafio de evitar simplificações e anacronismos. Este ensaio busca refletir sobre como a obra de Buarque pode ser utilizada para entender questões contemporâneas, especialmente a corrupção, por meio de um olhar histórico e sociológico sobre a sociedade brasileira.
Sérgio Buarque não propôs um tratado acadêmico, o que o diferencia de contemporâneos como Caio Prado Jr. e Oliveira Vianna, ou mesmo de autores posteriores como Faoro e Florestan. Sua obra busca explorar os hábitos, crenças e valores do brasileiro médio e suas relações sociais e políticas. Um conceito central de sua análise é o "homem cordial", que não remete à ideia de um brasileiro hospitaleiro, mas sim a alguém que age motivado por afetos e emoções. Para Buarque, essa cordialidade resulta em dificuldades em lidar com regras e normas universais, levando à ideia de que o que é válido para os outros não se aplica a familiares e amigos.
Essa dinâmica também se reflete na política, onde o "jeitinho" brasileiro permeia tanto pequenas transgressões cotidianas quanto práticas corruptas. Outro aspecto importante da cultura brasileira, herança da colonização portuguesa, é o imediatismo e a falta de planejamento a longo prazo, conforme discutido por Buarque em diálogo com Caio Prado Jr. Este autor, de viés marxista, argumenta que o subdesenvolvimento do Brasil está ligado ao modelo de colonização exploratória, que perpetuou a dependência econômica mesmo após a independência.
Desde a publicação original de Raízes do Brasil em 1936, o país e seus métodos de estudo social evoluíram, tornando-se mais quantitativos e empíricos. Contudo, as reflexões de Buarque sobre o comportamento social e político ainda oferecem uma base valiosa para pesquisas sistemáticas e uma compreensão mais profunda de temas como a corrupção e a administração pública no Brasil.
Caio César Vioto de Andrade, doutor em História pela UNESP-Franca, investiga a história da administração pública no Brasil republicano e atualmente é professor-monitor do Insper.
Fonte: VEJA
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