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A inteligência artificial está revolucionando a medicina, mas emoções como o otimismo também desempenham um papel crucial na saúde do coração.
A reflexão sobre o impacto da inteligência artificial (IA) na medicina vai além da substituição de humanos por máquinas. Durante uma palestra sobre o tema, percebi que a questão mais importante reside em nossa própria humanidade. A IA é capaz de processar vastas quantidades de dados rapidamente e tem trazido inovações significativas, especialmente na cardiologia. Contudo, existem aspectos que nenhuma máquina pode replicar.
A IA não possui valores, não entende o que está por trás de um sorriso, não sente compaixão ou busca significado para a vida. Embora essas qualidades possam parecer irrelevantes para a saúde do coração, estudos demonstram que nossas emoções e a maneira como enfrentamos a vida podem influenciar a saúde cardiovascular.
Um estudo recente, que acompanhou 4.326 pessoas ao longo de 19 anos, revelou que o otimismo pode reduzir a relação entre desvantagens socioeconômicas e doenças cardiovasculares, enquanto a raiva parece aumentar esse risco. Os efeitos positivos do otimismo foram mais evidentes entre participantes negros.
Esses achados reforçam a ideia de que a saúde cardiovascular não se resume apenas a fatores como colesterol, pressão arterial ou atividade física. O contexto social e as experiências acumuladas ao longo da vida também têm um papel importante. Enfrentar esses desafios com otimismo não significa ignorar problemas, mas sim acreditar que é possível melhorar, mesmo em tempos difíceis.
Uma metanálise publicada no JAMA Network Open, que revisou 15 estudos com 229.391 participantes, encontrou uma associação entre otimismo e uma redução de 35% no risco de eventos cardiovasculares. No entanto, os autores destacam a necessidade de entender melhor os mecanismos dessa relação e de desenvolver intervenções que promovam o otimismo.
O cuidado com doenças cardiovasculares vai além da administração de medicamentos; envolve ajudar os pacientes a entenderem a importância do tratamento e a encontrarem razões para mudar seus hábitos. Enquanto as máquinas podem sugerir o tratamento mais eficaz, apenas os humanos podem responder à questão fundamental: por que vale a pena cuidar de si mesmo?
À medida que as tecnologias avançam, é essencial valorizar aquilo que não pode ser automatizado. Máquinas podem processar dados, mas a verdadeira conexão e significado na relação médico-paciente são atributos exclusivamente humanos. Precisamos de ferramentas tecnológicas eficientes, mas também de uma humanidade que se faça presente nas interações de cuidado.
*Diandro Marinho Mota é cardiologista e assessor científico da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) para Tecnologia e Inteligência Artificial aplicada à Cardiologia.
Fonte: VEJA
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