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O discurso de que um governo técnico resolveria problemas históricos do Brasil ignora a complexidade da política.
Com a proximidade das eleições, é comum que as plataformas políticas se baseiem na ideia de que a solução para os problemas do Brasil reside em um governo técnico. Essa visão propõe que a presença de especialistas e normas rigorosas poderia afastar a "politicagem" e, assim, melhorar a administração pública. Termos como "gestor" e "técnico" são frequentemente utilizados para contrastar a política tradicional, considerada arcaica, com uma nova abordagem que promete eficiência.
Essa perspectiva, no entanto, não é novidade na história política brasileira. A análise do Estado brasileiro frequentemente remete a problemas como corrupção, violência e desigualdade, que são vistos como heranças históricas. Fatores como o patrimonialismo e a formação de um capitalismo baseado em relações pessoais, além das estruturas sociais legadas pela escravidão, são citados como barreiras ao progresso do país.
Historicamente, tanto à esquerda quanto à direita, houve tentativas de apresentar projetos políticos que visavam estabelecer um "novo Brasil", utilizando a história como base para justificar a necessidade de mudança. Contudo, a repetição desses modelos sugere um ciclo vicioso em que soluções antigas são reintroduzidas sob novas roupagens.
Um exemplo marcante dessa tentativa de modernização pode ser encontrado no Estado Novo, entre 1937 e 1945. A administração pública da época buscava a eficiência por meio da profissionalização, através da criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), com o objetivo de substituir relações pessoais por processos burocráticos.
Décadas depois, durante a ditadura militar (1964-1985), a ideia de modernização estatal reapareceu. Novamente, a técnica foi vista como uma alternativa à política, enquanto as elites burocráticas se tornaram protagonistas na administração pública. Nos anos 1990, sob um regime democrático, essa lógica se manteve, mas com uma mudança de foco: a modernização agora exigia a redução do Estado e a adoção de práticas gerenciais do setor privado.
Essa breve análise não visa igualar os diferentes governos, mas sim destacar como a linguagem política molda a compreensão da política em si. Segundo o historiador Quentin Skinner, conceitos políticos não apenas descrevem a realidade, mas também persuadem e justificam ações.
Além disso, Edson Nunes, em sua obra "A Gramática Política do Brasil", identifica quatro formas de organização política predominantes no país, sendo o insulamento burocrático um dos destaques. Esse modelo caracteriza-se pelo afastamento dos especialistas da sociedade, levando a decisões que não são fruto de debates públicos, mas sim de elites técnicas que reivindicam autoridade baseada no conhecimento.
Assim, a retórica do "governo técnico" apresenta riscos. Quando um político afirma que "não faz política", ele não está eliminando a política, mas ocultando as escolhas que ainda faz. A rejeição à política em favor da técnica pode ser problemática, pois governar envolve mais do que simplesmente administrar; implica representar interesses e negociar conflitos.
Portanto, é importante ter cautela em relação a candidatos que prometem governar apenas como gestores, pois pode haver intenções ocultas em sua retórica. A democracia requer planejamento e a contribuição de especialistas, mas a técnica não deve substituir a política.
Felippe Araújo Barbosa da Silva é professor e doutorando em História Política pela Unesp. Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA.
Fonte: VEJA
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