Corpos cansados como motor do mundo moderno, afirma Michelle Prazeres
Por Redação
12/10/2026 às 07:02

Foto: A Tarde
A exaustão se tornou parte de um sistema que prioriza a produtividade em detrimento do convívio social, segundo a jornalista e pesquisadora Michelle Prazeres. Em entrevista, ela discute a necessidade de enxergar o cansaço como uma questão coletiva e a importância do descanso como um direito.
A exaustão, que antes era vista apenas como uma consequência da rotina, agora é considerada uma parte intrínseca de um sistema que demanda produtividade e consumo constantes. A jornalista e pesquisadora Michelle Prazeres, autora do livro Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?, afirma que os "corpos cansados" são essenciais para manter essa dinâmica, que limita o tempo para a convivência social e prejudica a participação coletiva.
Prazeres ressalta que o cansaço deve ser encarado como uma questão coletiva, e não individual. Segundo ela, "se não entendermos o cansaço como um problema sistêmico, acabamos tratando a exaustão como uma questão pessoal que pode ser resolvida com pequenas soluções, o que não ajuda a reverter as desigualdades sociais existentes".
Em sua análise, a pesquisadora aborda como a aceleração da vida moderna afeta relações humanas e saúde mental, além de criticar a ideia de que todo tempo deve ser produtivo. Ela defende que o tempo livre também é um espaço válido para não fazer nada, enfatizando que o descanso deve ser visto como um direito e não como uma recompensa pela produtividade.
Prazeres destaca que a exaustão pode levar à apatia e ao isolamento, fazendo com que as pessoas se sintam desamparadas e sem esperança. Para ela, "corpos cansados não fazem política, não se rebelam, não constroem comunidades". Ela vê a urgência como uma construção social que obscurece a visão sobre valores humanos e essenciais, como a celebração e a escuta do outro.
Além disso, a pesquisadora discute a desigualdade no acesso ao descanso e a responsabilidade das empresas em promover a saúde mental dos trabalhadores. Ela argumenta que as mudanças necessárias para desacelerar a vida não podem ser apenas individuais, mas devem envolver transformações coletivas que assegurem o descanso como um direito acessível a todos.
Michelle Prazeres é também fundadora do Instituto Desacelera e leciona em instituições de ensino superior. Sua pesquisa se concentra na relação entre comunicação, tecnologias e aceleração social do tempo, trazendo à tona reflexões sobre como a sociedade atual molda a percepção do tempo e do descanso.
Fonte: A Tarde
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